29 de jul. de 2010
28 de mai. de 2010
A arte de ser feliz
A ARTE DE SER FELIZ
Cecília Meirelles
Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz. Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes um galo canta. Às vezes um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz. Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
Cecília Meirelles
Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz. Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes um galo canta. Às vezes um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz. Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
15 de mai. de 2010
Eu sei, mas não devia
Eu sei, mas não devia
Marina Colasanti
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E, a saber, que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Acostuma-se a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Acostuma-se para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
Marina Colasanti
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E, a saber, que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Acostuma-se a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Acostuma-se para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
25 de abr. de 2010
Inclusão Escolar: Realidade ou sonho?
Em busca da escola inclusiva???...
Victor já está matriculado e aguarda ansioso a ida pra escola que agendei para o dia 26 por causa do trabalho.
A vaga do Lucas também saiu para uma escola estadual, onde estudam minha sobrinha e alguns adolescentes aqui do prédio. Quando soube que ele foi encaminhado para lá já não gostei. Os alunos que já estão se formando não sabem escrever direito...
Fui até a escola para saber sobre como seria a ida do Lucas, se teria algum preparo e fui informada que são de 35 a 40 alunos por sala e que não tem auxiliar.
Fiquei espantada por não ter auxiliar, pois pensei logo no meu filho, claro, e lhe falei como era o Lucas e infelizmente ouvi: - Olha mãe, se ele é assim eu nem recomendo que você o matricule aqui... De fato foi o que fiz, não matriculei.
Fui até uma escola que segundo me informaram tinha uma sala especial, porém lá me disseram que era apenas para deficiência mental, que não tinham alunos com deficiência física (complicada essa inclusão...), após segui até o conselho tutelar, já tinha ido até a Delegacia de Ensino e ninguém fez nada a não ser dizer que precisávamos aguardar (nossa....).
Achei que no conselho tutelar seria diferente... A pessoa que me atendeu foi muito legal, porém me disse que estão de mãos atadas, que não podem fazer praticamente nada... É como na delegacia de polícia, só tomam uma atitude quando acontece uma tragédia.
Pois bem, primeiro eu preciso levar o Lucas pra escola e se não der certo, aí sim eu volto ao conselho tutelar e eles vão tentar fazer alguma coisa...
Confesso que está difícil, já tem mais de duas semanas e essa coragem ainda não chegou. Na verdade fico pensando em como ele fica triste quando não tem atenção e/ou quando não consegue realizar uma tarefa.
Sei que posso estar sofrendo a toa, que mesmo sendo da forma errada, pode dar certo a inclusão dele naquela escola, porém seria bem mais fácil se eu ouvisse: - Olha mãe nós faremos o possível para ajudá-lo e cuidaremos muito bem dele...
Sonhos... Nada mais. Sonhos que espero se tornem realidade. Acabamos sofrendo por bobagem, se a escola é obrigada a aceitar o aluno, porque não o fazer de bom grado, com vontade, com amor??...
Confesso que sofro, pois acabo pensando se vão lhe dar água, se vão tirá-lo da cadeira pra descansar, se vão conversar com ele... Pergunto-me se meu filho não vai ficar num canto da sala, como já ouvi tantos casos. O pior é que eu não saberei, apenas posso observar o meu filho para ver seu comportamento se vai mudar pra melhor ou pior...
É o cúmulo obrigar nossos filhos a irem pra escolas sem que as mesmas estejam adequadas a receber as crianças. Sou totalmente a favor da inclusão desde que a mesma aconteça com responsabilidade e em parceria com a família. Seria o mínimo a ser ofertado a família da criança com deficiência A SEGURANÇA, confiança em deixar nossos filhos em um ambiente totalmente diferente da nossa casa, onde temos as crianças embaixo da saia, protegendo e cuidando com muito amor e carinho.
É muito fácil fazer comerciais de tv dizendo que a inclusão está acontecendo, mas afinal que inclusão é essa??
Que bom temos uma lei que obriga a inclusão das crianças em escola regular, maravilha!! Mas pelo visto além de tudo nós teremos que fazer a lei ser cumprida, afinal estou sendo jogada de uma escola à outra desde novembro de 2009 quando comecei procurar uma vaga pro Lucas. Isso cansa!!
Abraços a todos e vamos lá, uma hora essa situação há de mudar!!!
Depoimento de Antonia, do blog Uma Mãe Especial. O Lucas teve anoxia neonatal, hemorragia intracraniana grau IV, hidrocefalia e meningite bacteriana. Como sequelas ficou tetraplégico
Victor já está matriculado e aguarda ansioso a ida pra escola que agendei para o dia 26 por causa do trabalho.
A vaga do Lucas também saiu para uma escola estadual, onde estudam minha sobrinha e alguns adolescentes aqui do prédio. Quando soube que ele foi encaminhado para lá já não gostei. Os alunos que já estão se formando não sabem escrever direito...
Fui até a escola para saber sobre como seria a ida do Lucas, se teria algum preparo e fui informada que são de 35 a 40 alunos por sala e que não tem auxiliar.
Fiquei espantada por não ter auxiliar, pois pensei logo no meu filho, claro, e lhe falei como era o Lucas e infelizmente ouvi: - Olha mãe, se ele é assim eu nem recomendo que você o matricule aqui... De fato foi o que fiz, não matriculei.
Fui até uma escola que segundo me informaram tinha uma sala especial, porém lá me disseram que era apenas para deficiência mental, que não tinham alunos com deficiência física (complicada essa inclusão...), após segui até o conselho tutelar, já tinha ido até a Delegacia de Ensino e ninguém fez nada a não ser dizer que precisávamos aguardar (nossa....).
Achei que no conselho tutelar seria diferente... A pessoa que me atendeu foi muito legal, porém me disse que estão de mãos atadas, que não podem fazer praticamente nada... É como na delegacia de polícia, só tomam uma atitude quando acontece uma tragédia.
Pois bem, primeiro eu preciso levar o Lucas pra escola e se não der certo, aí sim eu volto ao conselho tutelar e eles vão tentar fazer alguma coisa...
Confesso que está difícil, já tem mais de duas semanas e essa coragem ainda não chegou. Na verdade fico pensando em como ele fica triste quando não tem atenção e/ou quando não consegue realizar uma tarefa.
Sei que posso estar sofrendo a toa, que mesmo sendo da forma errada, pode dar certo a inclusão dele naquela escola, porém seria bem mais fácil se eu ouvisse: - Olha mãe nós faremos o possível para ajudá-lo e cuidaremos muito bem dele...
Sonhos... Nada mais. Sonhos que espero se tornem realidade. Acabamos sofrendo por bobagem, se a escola é obrigada a aceitar o aluno, porque não o fazer de bom grado, com vontade, com amor??...
Confesso que sofro, pois acabo pensando se vão lhe dar água, se vão tirá-lo da cadeira pra descansar, se vão conversar com ele... Pergunto-me se meu filho não vai ficar num canto da sala, como já ouvi tantos casos. O pior é que eu não saberei, apenas posso observar o meu filho para ver seu comportamento se vai mudar pra melhor ou pior...
É o cúmulo obrigar nossos filhos a irem pra escolas sem que as mesmas estejam adequadas a receber as crianças. Sou totalmente a favor da inclusão desde que a mesma aconteça com responsabilidade e em parceria com a família. Seria o mínimo a ser ofertado a família da criança com deficiência A SEGURANÇA, confiança em deixar nossos filhos em um ambiente totalmente diferente da nossa casa, onde temos as crianças embaixo da saia, protegendo e cuidando com muito amor e carinho.
É muito fácil fazer comerciais de tv dizendo que a inclusão está acontecendo, mas afinal que inclusão é essa??
Que bom temos uma lei que obriga a inclusão das crianças em escola regular, maravilha!! Mas pelo visto além de tudo nós teremos que fazer a lei ser cumprida, afinal estou sendo jogada de uma escola à outra desde novembro de 2009 quando comecei procurar uma vaga pro Lucas. Isso cansa!!
Abraços a todos e vamos lá, uma hora essa situação há de mudar!!!
Depoimento de Antonia, do blog Uma Mãe Especial. O Lucas teve anoxia neonatal, hemorragia intracraniana grau IV, hidrocefalia e meningite bacteriana. Como sequelas ficou tetraplégico
15 de mar. de 2010
Diferenças
Falar de diferenças, quando muitos discursos abordam a igualdade, parece ser uma contradição. A igualdade tão falada nos discursos diz respeito à igualdade legal, relacionada à lei, aos direitos e deveres de cada um. Por exemplo: todas as crianças têm direito à educação, a frequentar a escola. Neste momento, o que prevalece é a igualdade. Quanto à diferença mencionada, esta diz respeito ao multiculturalismo, que está relacionado à diferença de valores, de costumes. Por exemplo: em uma sala de aula, todos têm o direito de estar, no entanto, cada aluno é único, é singular e espera-se que, neste contexto, estas singularidades sejam respeitadas, ao abordar assuntos como: religião, costumes, classe social, gostos musicais, orientação sexual, dentre outros. O professor deve ser cuidadoso, imparcial e aberto a determinados assuntos e situações. De acordo com CANEN (2002), o multiculturalismo,
[...] busca respostas plurais para incorporar a diversidade cultural e o desafio a preconceitos, nos diversos campos da vida social, incluindo a educação. Procura pensar caminhos que possam construir uma ciência mais aberta a vozes de grupos culturais e étnicos plurais (Canen: 2002 178).
[...] busca respostas plurais para incorporar a diversidade cultural e o desafio a preconceitos, nos diversos campos da vida social, incluindo a educação. Procura pensar caminhos que possam construir uma ciência mais aberta a vozes de grupos culturais e étnicos plurais (Canen: 2002 178).
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